Uma viagem ao cenário musical dos anos 60, 70 e 80, mesclada cronologicamente com a trajetória de um jovem canadense chamado Zac, assim é C.R.AZ.Y. – Loucos de amor. Ao som de grandes nomes do glam rock da época como David Bowie, Rolling Stones e Pink Floyd, o drama psicológico do diretor canadense Jean-Marc Vallée, levou nada mais do que

dez anos para ser roteirizado, e foi baseado na infância do musico do mesmo país François Boulay, que também ajudou no processo de elaboração do filme. O titulo foi escolhido, para fazer um jogo de palavras que remete aos irmãos do rapaz: Christian, Raymond, Antoine, Zac e Yvan, fazendo uma alusão a sua musica predileta de seu pai, Gervais, Crazy –de Patsy Cline aqui mais conhecida na voz de Julio Iglesias. A saga de Zac é contada de maneira alucinante, mostrando sua infância marcada pela perda repentina da amizade de seu pai, atravessando sua adolescência e juventude conflitante em relação a sua sexualidade e resultando em uma maturidade plena.
O filme nos transporta a um universo cada vez mais enigmático, que é o do auto conhecimento. Mostra como somos influenciáveis pelo pré-julgamento alheio deixando de viver como queremos e ser como somos por causa dos estilos de vida pré-determinados pela sociedade. Apesar da estória do personagem central se passar principalmente em meados dos anos 70, é ainda tabu entre a grande maioria das pessoas. Zac assim como muitos amigos e conhecidos meus, amava imensamente o pai, amava a ponto de se anular perante sua própria verdade.

O filme nos mostra que o grande problema em se viver a vontade do outro, é comprometer a felicidade de outras pessoas com essas mentiras. No filme, em sua adolescência Zac namora Isabelle, que apaixonada de uma hora para outra se vê diante de uma dura realidade. Quantas serão as “Isabelle” espalhadas por ai? Quantas mulheres não se vêem envolvidas, enamoradas e muitas vezes casadas com completos desconhecidos? E quantos não são os homens que se deixam levar pelas aparências enganando as pessoas e corrompendo-se? E até que ponto vai a responsabilidade deles perante essas situações?
A questão chave para compreendermos é mostrada no filme, este tipo de situação esta fundamentalmente ligada a questão cultural do ambiente em que cada um vive. No filme, Gervais, pai de Zac, tem uma imagem deturpada da relação afetiva entre dois homens, infelizmente na vida real não é diferente. Essa imagem inevitavelmente é passada para os filhos gerando um ciclo de intolerância e desrespeito à diferença. E mesmo mais de trinta anos depois, a mentalidade em relação ao tema não é diferente.
O filme mostra que é necessário que haja uma reinvenção de valores, que se olhe com mais respeito aos que se difere de nós pelo modo de se pensar e agir, é extremamente necessário que isso seja passado de pai para filho, mas que haja um pensamento individual para cada um, sem medo de transmitir as crianças que é normal ser gay, lésbica, comunista, neoliberalista, hippie, kardecista...
Zac o herói do filme, conseguiu libertar-se da couraça do preconceito a tempo de reconstruir sua vida e reconquistar a muito custo o carinho do pai. Mas quantos ainda se enclausuram com medo do pai, do avô, do vizinho, e acabam mentindo para si e para os outros, causando feridas bem mais profundas do que as do próprio orgulho?
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